23 março 2007

A fome esvaziou-me...

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... Hoje na minha casa penso de vez em quando no Meireles. E o gesto suicida parece tornar-se no mais transparentes dos mistérios. Na época toda aldeia Campista perguntava: - "Por quê?". Ninguém entendia nada. Mas o Meireles está diante de mim, tão nítido. Morreu do amor livre e, pois, de falta de amor.
Tudo é falta de amor. O câncer no seio ou qualquer outra forma de lesão de câncer. É falta de amor. As lesões do sentimento. A crueldade. Tudo, tudo falta de amor.

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A fome esvaziou-me; e eu me sentia oco, sem entranhas, como um autopsiado.
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O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce como tal e envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.

O obvio Ululaten - Nelson Rodrigues

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