30 novembro 2006

não se estando distraído, o telefone não toca...

Faz tempo que nao leio Clarice Lispector mas ela sempre vem a mente nos momentos oportunos, como nao esquecer das passagens do seu livro, essa escritora é única... Falando de mim particularmente ela é a pessoa que me entende, sei lá como explicar que foi derrepente alguem me emprestou um livro ou não, talvez eu comprei assim por nada, dai Clarice, a eterna para mim, nao importa a idade em que li ou estou relendo, ela sempre é referência sobre minha pessoa tal qual me sinto e é sempre oportuna vale salientar, por isso um trecho

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

08 novembro 2006


Sobre si mesmo ( CHARLES BOKOWSKI)

"Lá estavam as cicatrizes, o narigão de alcóolatra, a boca de macaco, os olhos reduzidos a fendas; e lá estava o sorriso burro e satisfeito de um homem feliz, ridículo, que se sente um sortudo, e nem sabe por quê. Ela tinha 30 e eu mais de 50. Não me importava."

sozinho com o mundo

a carne cobre o osso
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra a parede
e os homens bebem
demais
e ninguem acha o
escolhido
mas continuam
procurando
rastejando pra dentro e pra foradas camas.
carne cobre
o osso e
carne procura
por mais que
carne.
não há chance
alguma:
nós estamos todos presos
por um destino
singular.
ninguem nunca encontra
o escolhido.
os esgotos da cidade enchem
os ferros-velhos enchem
os hospícios enchem
os hospitais enchem
os cemitérios enchem
nada mais
enche.

(Charles Bukowski)